terça-feira, 8 de março de 2016

Seis palavras

Com data marcada a dor entrou.

*exercício de contar uma história com seis palavras! 😉

Carla - 08/03/2016

sexta-feira, 4 de março de 2016

Ainda a poça d'água



Mais uma manhã e aquela poça de água espalhada pelo hall do apartamento. Já não era a primeira vez e pelo mistério que a envolvia, não parecia ser a última.
Geralmente aparecia acompanhada de uma chuva na noite anterior, mas era muito estranho, pois o hall não tinha janelas.
Eu me lembro bem a primeira vez que olhei aquela enorme mancha de água no chão. Água que insistia em ficar ali, parada, imóvel, presente, enigmática. Como tinha chovido, a primeira hipótese era sobre ter alagado um dos apartamentos e a água escorrido pela escada. Olhei a saída da porta do meu apartamento, nada indicava tal possibilidade. A poça estava mais para os lados da minha vizinha, aquela que mora há tantos anos no edifício, que insiste em ser a manda-chuva, mesmo sem assumir o cargo de síndica. Pensei que provavelmente teria vindo do lado dela. Abaixei para olhar mais perto, nenhuma pista sobre a origem. Fixei bem o olhar para notar se existiria um restinho do filete de água que pudesse ter gerado aquele acúmulo. Nada. Nem sinal da água ter saído da casa dela. Olhando melhor, a água não vinha de lugar nenhum, nem de uma infiltração da escada, nem tinha escorrido dos apartamentos de cima através dos degraus. A água brotou no meio do hall.
Sem saber o que fazer, desci e avisei o zelador que me olhou com uma cara estranha e disse que iria limpar. Notando aquela reação, perguntei se ele sabia o que era e ele disse, com aquele jeito de mineiro que não fala pra não ter que provar, mas também não fica quieto:
- Deve ser a mulher do cento e onze...
E eu lá sabia quem era a mulher do cento e onze? Aceitei essa informação como verdade. Mas outra dúvida brotou na minha cabeça: como a mulher do cento e onze teria ensopado o hall do sétimo andar? Sem muita paciência para a fofoca, fui embora, com a dúvida.
Dia seguinte, nada de poça. Mas uma mancha fosca no piso que havia sido resinado há poucos meses, maculava aquele chão antigo e indicava: "passei por aqui“. Mas quem? A mulher do cento e onze ou a água enigmática?
Dez horas da manhã de um sábado ensolarado toca o interfone. Era a vizinha, não a do cento e onze, mas a do setenta e dois. E foi logo se desculpando por ter ‘invadido’ minha privacidade ao interfonar:
- Oi, bom dia, tudo bem? Você viu o hall manchado, né? Queria só te avisar que vem o pessoal da limpeza pra remover a resina.
Ela dizia aquilo como se a água misteriosa nem tivesse existido. Eu queria mais saber da água do que da remoção do verniz que ela insistia em passar no chão, para disfarçar a decadência do piso ‘original’. E fui logo perguntando em tom de fofoca, porque sempre funciona:
- Mas de onde veio aquela água?  E ela falou mais baixo, como se as paredes e portas tivessem ouvidos.
- Não temos certeza, mas parece que foi a mulher do cento e onze. E eu continuei, com uma tentativa de entender melhor:
- Mas como ela jogou água no hall e ninguém viu, nem ouviu? É estranho, porque não tinha marca de água vindo de nenhum lugar, pra mim era infiltração da escada.
E, ela veio com mais histórias.
- Não podemos provar, mas ela tem um problema com cheiros e parece que o produto de limpeza que passamos aqui a incomodou. E ela joga água para neutralizar.
Era muita loucura para um sábado de manhã.
Minha cabeça tentava reconstituir a cena com uma mulher inventada, porque eu não sabia que cara ela tinha, e eu viajava: ela trouxe a água num balde ou ela veio com uma garrafa? Desceu pelo elevador ou pela escada? Que cheiro ela sentia que eu, que moro ali, não sentia nada. Como um cheiro provoca isso tudo? Desisti, não ia entender e ‘nem tinham como provar’, ninguém sabia de nada.
O verniz foi removido. O piso era todo fosco e velho novamente. Todas as manhãs, ficava evidente a secura daquele chão. Mas depois da chuvarada, a poça aparecia, dando brilho naquele chão opaco. Eu não acreditava, porque se tinha sumido o verniz, o cheiro tinha ido junto. E aquela água não vinha de nenhum lugar. O prédio era velho, mas não parecia ter fantasmas.
Novamente falando com o zelador ele me contou que a mulher do cento e onze tinha discutido com o morador do primeiro andar, por causa dos cheiros do prédio. Não aguentava entrar no elevador pela manhã, porque os moradores tomavam banho e passavam muito perfume e o espaço era fechado. Os produtos de limpeza do prédio tinham cheiro forte e ela não suportava, estava enlouquecendo. Brigaram, se xingaram e ela o ameaçou. Só faltava essa, a mulher do cento e onze era doida e pretendia matar o morador do onze, que era um policial aposentado que tinha uma arma em casa, mas não conseguia segurar a louca do topo do prédio. O assunto se espalhava. A vizinha do cento e doze tinha medo de levar uma facada durante a noite, pois já tinha sido ameaçada, e agora passava perfume só quando saia do prédio ou dentro do carro. A síndica não colocou aviso público, mas aconselhou os moradores a usarem apenas o elevador social pela manhã, deixando o elevador de serviço, ‘sem perfume’, para a inquilina problemática. O faxineiro limpava o prédio só com água, evitando assim, provocar a fera.
Resumo: a louca enlouqueceu o prédio todo.
Era hora de tomar uma atitude, não fazia sentido prolongar essa situação absurda. Comunicaram o dono do apartamento, sugeriram que ele tomasse uma providência. Ele não queria mexer com a mulher do cento e onze, porque ela pagava bem e nunca atrasava. Mas os moradores se sentiam ameaçados e a decisão foi pedir o apartamento.
Ele pediu, ela mudou.
Chovia e nada de água. Limpavam pisos e escadas e nada de água. O mistério tinha sido solucionado: era a mulher do cento e onze que jogava água no chão. Ninguém sabia como e nem porque ela só molhava o sétimo andar, mas acontecia.
Alguns meses se passaram e me encontro hoje, olhando para a mesma poça naquele chão. Sim, teve chuva, mas não, não teve alagamento no prédio e nem a mulher do cento e onze voltou a morar aqui. Vai começar tudo de novo.



Simone de Paula – 23/02/2016

Conto inspirado em’O Fantasma de Canterville’, de Oscar Wilde, o poema‘Água  (‘De l’eau’), de Francis Ponge e todos nos estudos que venho fazendo sobre o elemento Água, suas metáforas, imagens e sentidos.

quinta-feira, 3 de março de 2016

I


Junho. São Paulo.

Última semana de férias das três que tive, refletidas em mim.
Pelas horas tranquilas que dormi, pelos pensamentos soltos que vinham sem caminho, propondo um rumo de perguntas, choros desavisados, contentamentos simples, de bolo de milho cremoso e chá quente, bem quente.

Não sentia saudade do escritório, das suas horas mecânicas, do seu tempo congelado, seu assunto na superfície chata e fria de um cubo de cimento cinza e suor de gente, disfarçado pelo cheiro de laboratório da lavanda. As vezes me faltava um tipo de ar, que era o de respirar sem protocolo. Piqueniques me soavam estranhos, em cima de um tapete em cima de um piso em cima de uma grande caixa que era o andar. Chocolate para as sextas com chuva, bilhetinhos surpresa lembrando o quanto você é especial por enriquecer o mundo que empobrece a si mesmo.
Atenção para os últimos dias livres: amigos, café e cinema, caminhar solitário, um velho conhecido.

Até aquela noite.

Com o vestido azul e as sandálias cor de laranja, cabelo solto e curto, as coisas eram de outro jeito. O florido da estampa já anunciava um jardim repleto de sementes, ainda subterrâneas. Estavam em plena germinação, dentro do mundo.
Andávamos pela Vila Madalena, eu e Carol, ela me contava de um amor que vivia longe, em Paris e eu a ouvia como podia diante do ruído de torcedores em todos os cantos.
Era o outro lado do jogo.
Copa do Mundo, a primeira no país, emocionante ver o Brasil assim, recebendo caras e vozes tão diferentes, vagávamos ávidos por sabe-los e assim saciar nossa curiosidade diante do drible desconhecido.
A rua nos atropelava, éramos muitos, múltiplos, bola fora de área, jogadores sem time, perdidos diante desse fantasioso desejo de ser o que não é.
Enfim nos sentamos na mesa de um bar calmo.
Nossa conversa não se estendeu muito, deve ter durado quinze minutos até o primeiro convite para um chope, primeiro o nome, faz o quê, nacionalidade, solteira?
E aí trocamos o namorado em Paris, as saudades de Carol por 2 pastéis e um suíço, sem colarinho, novas pessoas chegaram e a pequena mesa passou a conter continentes. Falei entusiasticamente sobre o Rio de Janeiro, cidade que acho tão linda, generosa no calor e na pele, que me lembra aquele tempo dos amigos estudantes de arquitetura, do olhar atento aos traços das ruas e prédios, casas, calçadas. Tudo fazia desenho e cor. Queríamos aprender os filmes de Bergman e o Corcovado, filosofávamos sobre “Garota de Ipanema” e a mata em pleno desmatamento. Íamos pela rua Vinícius de Morais, éramos parte da melodia, das ondas e também do medo, do terror da violência anunciado a cada esquina. Agradecíamos ao sol e seguíamos.
Alguém do outro lado do bar ouviu meu discurso inflamado e com uma voz gostosa me conta: vou para o Rio!
Confesso que me senti uma pessoa boa no mundo, em pensar que alguém caminharia em Copacabana, ouviria aplausos do mar e poderia comer sanduiche de abacaxi com queijo depois do meu relato amoroso.
Não demorei em saltitar da mesa em que estava onde as reações passavam longe dos 40 graus que circulavam dentro de mim, ali sentados, pareciam presos na fria terra materna. E olha que se ouvia samba, um belo Cartola, você está no Brasil meu irmão, há que aquecer a alma e o coração.
E pulandinho assim fui me sentar com o simpático moço. Tinha um rosto árabe, era muito alto. O inglês mole e cantado pela embriaguez de ambos, somados as gargalhadas foi sem dúvida a língua mais fácil e difícil de se entender ao mesmo tempo.
Mas havia outra pessoa ali, me olhando com cuidado. Era o amigo, me contam que são indianos. Indianos?!
Enquanto ele observava lentamente.
Estava sentado, ereto. Vestia sua melhor camisa, os cabelos bem penteados, lindo. Depois de se apresentar, senti como se me segurasse pelos braços, forte. A pele escura, a voz tímida, um charme tão genuíno que me senti derretendo como Amelie. 
Me conta que vai deixar tudo e fazer o seu filme.

Pensei: vamos.

Carol e o amigo se aproximaram, o barulho continuava. Não importa. Era o mais puro silêncio.
Fomos até a calçada.
Me afastei por um instante, fui distraída por um olá sem importância, olhei de novo para ele encostado no muro, acendia um cigarro enquanto conversava com algumas meninas. Fiquei enciumada, imaginei que elas logo poderiam provar da experiência única que havia sentido a poucos instantes quando ele sorriu. Por um momento imaginei uma iguaria perdida na disputa diante de tantos esfomeados.

Me enganei.

Foi porque quando cheguei perto dele, ainda um pouco cabisbaixa diante do suposto desencontro, ele olhou para baixo também, acompanhando meu rosto, procurando o ângulo onde nos encontraríamos, e disse, sem saber que uma vida inteira mudaria, em tempo, ação, amor e geografia:

You.














Maria Laura, 03 de março de 2016.


terça-feira, 1 de março de 2016

Meu testamento, minha vontade.

No fim descobrimos que não resta nada para deixar.

Aquilo que fica passa a ser outra coisa e muitas vezes se esvazia da nossa pessoa, virando apenas tralhas na casa de algum parente.

Sendo assim, no auge dos meus 7 anos decidi que não deixaria nada para trás.

Que só olharia para frente.

E, que quando morresse o que estaria escrito no meu testamento seria apenas registros do que fui.

Caso isso interessasse a alguém, haveria um caderno cheio de fotografias de todas as viagens que teria feito e pistas da mulher que eu fui.

Porque no fim só sobra um rastro daquilo que fomos.

Carla - 01/03/2016

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

É só o Destino



Nasci num mundo cheio de gente. Gente de todas as formas, cores, tipos. Mas nenhuma encaixa.
Tento explicar pra mim mesma, mas nem eu entendo. O analista também não, o macumbeiro idem e a melhor amiga nem sabe do que eu estou falando.
Dei voltas ao mundo, procurando encontrar o par perfeito. Acho que nos desencontramos, porque é impossível não ter quem combine.
Poetas, escritores, cineastas, compositores e artistas, todos sabem exatamente do que eu estou falando, porque só alguém na mesma situação conseguiria descrever tão bem esse estado. Mas quando eu penso que fazer uma canção seria a solução, a folha em branco me lembra: é só você!
Essa verdade assim, revelada cruamente pela folha em branco, pede um revestimento melancólico. Bobagem, melancolia não sinto, nem isso.
Acabei de me dar conta de que nem os poetas, escritores, cineastas, compositores ou artistas encaixam, pois eles têm pelo menos a melancolia. E eu, nem ela me acompanha.
Uma vez encontrei alguém. Não era exatamente, mas dava pra fingir que cabia. Tentei tanto, que acreditei ter dado ‘match’. Anos se passaram e a rotina se encarrega de esconder as diferenças por trás das obrigações. Tudo parece combinar, como numa dança monótona: dois pra lá, dois pra cá.
Mas a gente não engana o destino, ele não tem pressa, nem ansiedade, nem preocupação em provar aquilo que está traçado. Ele simplesmente passa a caneta na hora certa.  E claro, a rotina sucumbiu à solidão e as coisas voltaram ao seu lugar. Estou só.
Engraçada essa coisa de solidão, me dei conta de que ela não me aflige mais. Ela não precisa ser evitada, escondida ou negada.
A última vez que ela me pegou, os disfarces se desconectaram. Tava tudo amarrado, girando numa aparente normalidade, mas soltou. E, ao invés de surpresa ou sofrimento, não tinha sentimento. O tempo parou, e assim não há ação possível. E nem pressa, nem incômodo, nem nada. Era isso, eu estava só. E algo novo tinha se revelado, era o destino, eu e ele, nós dois. Finalmente encontrei o que encaixava, eu mesma no meu destino. E o que ele me revelava, era que ele tinha me reservado a solidão.

Simone de Paula – 25/02/2016


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Aleijadinho


Cheguei em Ouro Preto por volta das seis horas da manhã.
- O sr. poderia me levar na melhor padaria da cidade? Perguntei ao taxista.
Acho que ele segurou o riso para ser gentil.
- Paulista? Se é a melhor eu não sei, mas se ocê quer um trem pra comer aí tem.
Responde generoso diante da minha total falta de sintonia.

A padaria no caso era um lugar que vendia quase tudo, de pé de porco a rosca de coco.
Compota, parafuso, jornal.
Mesa de centro para apoiar o copo, cortina vermelha dando aconchego ao frio da hora. Alguns tomavam sua última pinga, outros a primeira.
Cheiro de pão quentinho e café, o maior respeito aos sentidos.

Tinha uma pressa danada dentro de mim, não saía. Mastigar, andar, fotografar, postar. Vai, vai, vai.
Em pouco tempo, boa parte da cidade estava semi desvendada sem o menor cuidado.

Calma corpo, calma.

Era hora de me perder. Subindo e descendo.
Cheguei na Igreja do Pilar. A com mais ouro disseram.
Eu não entendi e não entendo até hoje, o formigamento que me deu.
Entrei.

Fui tomada por um choro como um vento levando tudo, tirando o que havia do lugar. Remexendo sólidos tijolos, cimentos barrocos, terra firme e roxa.
Caí em reverência. Não a um santo que não conhecia, mas ao sagrado que morava em mim e em um instante se reconheceu.

Era o prenúncio de um encontro.
Dali bem pouco, nos veríamos pela primeira vez.

Se eu pudesse, voltaria agora.
Não exatamente para a igreja, mas para dentro dessa cozinha mineira igual a que fui em Mariana, um maravilhoso templo.
Ouviria atrito de garfo e faca e fumaça.
Me aproximaria do grande fogão construído no meio do salão e bem devagar saberia que era lenha queimando, faísca por faísca, estalo, ardendo, em plena transformação, um estado em outro estado.
Bem esse que era em mim.
O de não ser o mesmo, a mesma. E nunca mais seria.

Depois dormir. Horas.

Respirar profundamente em frente ao santo, um santo barroco, exige maturidade da gente. Descanso.
Era preciso muito para estar diante de Aleijadinho.
Seguir seu rastro, se alinhar na sua costura pela cidade.
Juntando os pedaços.
O corpo, uma vida inteira.

Ele dizia em meus ouvidos:
Cale, silencie e penetre.
Há profetas em volta, são sábias as palavras, apenas escute.

Arrepios.

Foi artista, tido como herói, filho de homem português, mãe escrava, pai, sogro, branco, preto, pardo.
Só se sabe guiado por um anjo e o cálice da paixão.
Abram portas e janelas!
Maduro, a doença avançava. O que era? Ninguém dizia, aos poucos se desmaterializava diante da rigidez de suas pedras.
Ia embora perdendo a vida. Reconhecendo a vida.
Fragmentando-se. Aleijando-se.

Voltarei um dia lá, contigo. Você vai saber o que é um tutu de feijão, couve e São Francisco de Assis. Vou te mostrar meu tempo esculpido. Embora em constante reconstrução. Espero que faça frio para os nossos narizes gelados se tocarem e se reconhecerem.
E nossos corpos saberem-se quentes, amanteigados.

A gente se lembra do seu sonho, de que íamos para montanha. Estamos em frente a montanha.
Sei muito pouco, mas estou acordada.

Nada mais inteiro, que um amor quando abraça o outro.

Maria Laura, 25 de fevereiro de 2016.



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Na tentativa de seguir...

Nora chegou à cidade e teve certeza que escolheu a melhor época do ano - outono. Caminhava pelas ruas em direção ao museu e tinha a impressão de estar em uma pintura. As cores que tomavam a cidade eram todas quentes. Cores que ela passou a vida inteira a perseguir. Realmente passou uma vida em vermelho, laranja e dourado. Programou essa viagem inúmeras vezes na sua imaginação, talvez, a partir do dia que entrou em contato com a pintura. Tinha treze anos e resolveu fazer aulas de pintura no colégio na tentativa de evitar horas livres em casa na companhia de um irmão chato. Não aguentava mais aquela relação, onde sempre levava a pior e acreditou que passar mais tempo na escola resolveria o problema. Não seria mais o alvo do irmão que na época atirava sua raiva e frustração em quem estivesse por perto. Se seu irmão era marcado pela raiva e agressividade, na primeira aula de pintura percebeu que sua marca seria a cor. Ela passou a tentar alcançar as cores em todos os lugares e momentos, até mesmo nos rompantes do irmão. É como se ali ela tivesse ganho seu filtro. Era a partir das cores que experimentaria tudo.

Caminhando até o museu, recordou essa cena inicial com a pintura, as cores e pensou no irmão. Ele tinha sido de alguma forma o responsável por ela ter encontrado a sua arte. E, também, pensou em quanto a vida do irmão lhe tinha ensinado sobre algumas cores e sombras: o escuro, o preto, o cinza e no fim, o vermelho, que tomou conta das últimas cenas da vida dele. Quando chegou ao hospital para tentar entender o que tinha acontecido, o encontrou rodeado de médicos, com seus aventais brancos encardidos, o verde desbotado das paredes e o corpo do irmão como se tivesse sido pintado de vermelho. Estava com o corpo inteiro vermelho, como se o seu sangue fosse uma tinta. O acidente fôra fatal, e ali percebeu que seu irmão sempre havia escolhido essas cores e suas intensidades. Não podia ter sido diferente. Quando Nora chegou em frente ao museu, aquela cena inicial com a pintura já ocorrera há vinte anos. A morte de seu irmão há dez e ela estava com trinta e três e sem cor alguma. Sua pele não era branca, era pálida, era a ausência total de cor.

Entrou no museu sem sua cor e logo reparou como esse lugar era familiar, independente do local do mundo em que estivesse. As cores começaram a chamar a sua atenção. Deu vontade de olhar quadro por quadro, mas sabia que tinha vindo para ver o quadro, um quadro específico. A pintura que a definiu nos últimos dez anos. Antes mesmo de chegar na sala onde a tela estava exposta, sua memória trouxe cenas que havia vivido em função desse quadro. Lembrou da primeira vez que entrou no estúdio do Homem que a ensinaria muitas coisas a respeito de pintura e do viver. Foi exatamente seis meses depois da morte de seu irmão e ela estava transtornada. A morte dele lhe tirava a força de uma época infantil e sendo assim não conseguia mais permanecer aos cuidados do professor de pintura da escola. Um amigo de seu pai disse conhecer um artista plástico de muito talento e se ofereceu para fazer as devidas apresentações. Nesse instante, pensou que o amigo do pai também era responsável por ela ter sua arte. Sem sua influência nunca conseguiria chegar perto do Homem que mudaria tudo, todas as cores.

Chegou na sala onde a tela estava exposta e antes mesmo de se colocar na frente dela, parou para olhar à distância. Havia um grupo de turistas fotografando euforicamente o quadro. E isso fez com que ela ficasse à distância. Primeiro porque não entendia como alguém que pretendia contemplar uma pintura pudesse fazer tanto barulho; segundo que não aceitava como alguém deixava de olhar o original para tirar tantas fotografias que depois nem iria rever; e, por último, percebeu seu nervosismo, sentiu um calor subir pelo corpo e chegar ao seu rosto. Sabia que estava levemente vermelha. Enfim, não era um encontro qualquer, era um encontro com o quadro que permeou os seus últimos anos.

Ainda de longe, lembrou a sua primeira visita ao novo professor. Ela esperava mais compaixão da parte dele, até por imaginar que o amigo do pai lhe tivesse contado a respeito do luto pelo irmão. Mas não. A primeira pergunta que o Homem fez foi: "qual é o traço da sua perda?" Ficou imóvel, não conseguia dizer nada e nem pensar em nada. Com os olhos cheios de água percebeu que não sabia qual era o traço que a morte do irmão tinha inscrito nela, apenas lembrava do vermelho, do sangue. Decidiu responder: "só tenho uma cor, vermelho". O novo professor rapidamente se deu conta que aquela garota não tinha elaborado muito, não havia nenhuma escrita nela a respeito da experiencia da morte, apenas uma mancha. E, delicadamente a levou para frente de uma mesa com todas as tonalidades de vermelho que ela pudesse imaginar que existiam. Diante das tintas ela só pôde chorar. Ele era a primeira pessoa a entender o que se passava nela.

Começou a frequentar o estúdio três vezes por semana de tarde até a noite. Eram dias esperados e mais que isso, desejados. Eram os espaços em que podia viver suas dores e cores. Ela lembrou disso tudo com sorriso nos lábios e com a devida distância que ainda precisava manter do seu quadro. Ela sorriu ao perceber, de forma ingênua, que ali naquele momento de dor com a morte do irmão, achava um lugar para de novo evitar sua casa, que hoje não era povoada por rompantes de raiva do irmão, mas pelo silêncio fúnebre dos pais. As coisas tinham mudado muito, mas as cores para ela continuavam as mesmas.

Os turistas se afastaram e ela precisava chegar perto do quadro. Tinha uma dívida diante dessa obra, essa pintura que lhe ofereceu tanto. Nunca poderia deixar de fazer reverências a essa tela. Quando olhou de frente o quadro era como se tivesse diante do espelho. Aquelas cores, traços, os amantes, a moldura, tudo fazia parte do que ela tinha se transformado. O gosto do vinho na boca, a música, as risadas e os corpos enlaçados tomaram seus pensamentos, como se estivesse vivendo aquele dia em que viu pela primeira vez o quadro. Permanecia hipnotizada, como no passado, pelo erotismo que estava retratado ali. Era a primeira imagem de vida, depois de tantas de morte que olhou e pintou. Aquele quadro representava a possibilidade de viver. Chegou a fechar os olhos e ouvir a voz do Homem que lhe apresentou o quadro: "quando você estiver na frente desse quadro a única coisa que te peço é que me dedique suas lágrimas". Elas, as lágrimas, vieram imediatamente. Seu pranto silencioso diante de uma obra que a recolocou na vida. Quanto à dedicatória, não sentia que poderia fazer. Não poderia dar lugar a um outro antes de dar lugar a si mesma. Ficou com as suas lágrimas e suas lembranças.

Carla 23/02/2016