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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Praia do Ana Rosa

ele me contou da venda que fica virando a esquina, que vai lá, compra o que precisa, depois volta. enquanto cria, cria.
aí me disse pra pisar no chão e ver a coisa toda de uma perspectiva nova.
meio bravo, não bravo, tão acolhedor que eu não via ninguém assim hace muito tempo.
um encontro de segundos de milésimos de uma soma sequência dos dois em seus caminhos imprecisos. sim.
se achava que não existia, garanto que tem. e é tão amoroso. é tão.
abriu um mundo todo e reconheceu os antigos.
ah as loucuras do amor de quem não se vê e sente.
se fosse piegas, diria que é assim que é mesmo.
mas como é, estamos unidos.



quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

A Rainha das águas - Capítulo 1


Não podia conter a tremenda ansiedade daquela manhã.  Preparou uma lista já designada para esses momentos: o que não podia esquecer, o que só levaria se coubesse na mala, uma roupa estilosa para aquela festa surpresa que os meninos iriam preparar em algum momento, com certeza (por favor!) e por fim, a inseparável bonequinha mais linda de todo o mundo, a Bebel.
Era nisso tudo que Olivia pensava há dias, semanas senão meses antes da  viagem mais esperada de toda sua vida de 8 anos, pelo menos era o que ela achava até aquela hora. Cataratas do Niágara? Egito? Pantanal? Não, não e não. Se fossem essas provavelmente já estaria hospitalizada de “não conseguir dormir nunca mais de alegria” aguda.
Bem mais simples e com uma alegria igualmente feliz, planejava sua viagem para o acampamento da escola em Atibaia, pertinho da sua casa, que era em São Paulo que fica no Brasil e o Brasil quando as pessoas de outros países leem se escreve Brazil. Deu pra perceber que entrou um z aí nessa história? Nunca deu pra entender direito isso. Com certeza o todo 4º B também não entendia. Olivia inclusive.
Agora imagina o 4º A e B juntos no meio das montanhas, acampando com barracas de verdade e até um fogareiro cheio de fogo que a prof ia levar? Nem dá pra imaginar uma coisa que só pode ser classificada com uma palavra: um sonho. Ops, pode ser duas? Um sonho maravilhoso.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Cereja tem seu próprio doce

Estava na cozinha desde cedo, bem logo saiu a luz do dia. A janela era grande, de vidro e ainda dava pra ver verde no fundo. Algumas árvores, alguns prédios, tinha um bom bocado de céu também. Era um orgulho aquela imensidão toda do cômodo preferido. Teria tempo pra fazer o que queria fazer: um grande café da manhã depois de mais uma noite em claro. Sim, não eram raras as noites sem dormir nada. Tentou luz azul no fundinho, música meditante indiana, orgânica, shiva om shiva, chás, quase todos e literatura. Mas estava desperta, acordada, de olhos bem abertos. Abriu a geladeira, figo, manteiga, cerejas bem maduras do Natal, leite, semente de girassol. Há dois dias tinha desenvolvido uma técnica pessoal ainda sem eficácia comprovada para aliviar sua insônia. Era assim: a cada noite elegia alguém pra pensar, começou com o marido. Tinha de ser alguém da família. Aí com a imagem na cabeça e o sentimento mediando a coisa toda ela começava. Ele, ele, ele. Nos conhecemos. Lembro do dia da camiseta vermelha com um pingo de mancha branca de cândida bem no umbigo. Me olhou daquele jeito arrepiante, eu dançava e suava. Hora de pensar na combinação do fogo com figos, cerejas, leite. Imagina as três filhas ao acordarem. Sofia chegaria toda arrumada, já pronta pra escola com livro na mão fingindo ignorar a mesa tão bem posta tão cedo. Luana se sentaria sem ver nada, apenas um prato em sua frente que empurraria pra poder deitar a cabeça sobre a mesa pro resto de sono viver. Raquel perguntaria ironicamente o que é que estava acontecendo com aquela mesa posta em dia de semana com a toalha azul e os pratos verdes e que faltava um tom mais quente para  um dia mais acolhedor. Algo poderia ser feito, ovos, precisa, farinha, uma boa, sim. Panquecas, das altas, com uma geléia de cereja por cima, sementes de girassol tostadas no mel, sim, por cima de tudo. O figo frio. Naquela noite pensaria em Sofia, o dia que ela nasceu, a primeira. Lembrou da dor de um ventre aberto, rasgado, dando a primeira vida, ela tão pequena em minhas mãos, com um choro rasgado também, ela me olhando sem abrir os olhos me desafiando a aceitá-la e mais tarde sua maneira de ver o mundo, tão racionalmente diferente da minha. A massa estava pronta e levei o primeiro círculo pra dentro da frigideira, demorou pra pegar a forma, na segunda foi, a cereja sem caroços na panela, um pouco de água fervente pra amolecer. Açúcar. A música do Chico, vai colocar filha, aquela do afeto. Luana não escutava nada, mas ela era quem sabia onde encontrar cada pedido desses. No dia de pensar nela sabia que haveria ritmo, embalo e nino, nana, naninha de Luana. Nessa noite em claro era mais provável a presença de um um sorriso calmo no rosto. Diferente seria a de Raquel, ferinha afiada. Era tão importante que ela trouxesse o incômodo mais complicado e difícil de ver. Foram muitas sessões pra saber que era de mim que a pequena falava. Era a sua observação cortante que dilacerava as minhas defesas tão supostamente bem fincadas num lugar impenetrável e protegido. Essa menina, essa pequena, meu último parto, meu ninho completo. Ela fazia as perguntas mais difíceis do mundo todo, queria arrancar de mim a verdade, somente a verdade, que eu nunca poderia dizer a ela. Da minha dúvida em mim mesma. Da minha fragilidade a ponto de cair no chão e não levantar, mesmo tendo feito panquecas com geléia fresquinha. Era ela mesma quem viria primeiro, antes de todas, passar as mãos em meus cabelos com a boca pingando mel e as pequeninas mãos melecadas de fruta diria, mamãe, eu vi quando você caiu, agora venha ver que tem uma planta nova que dá pra ver aqui da janela, será que foi aquela que a gente plantou no dia do João pé de feijão no algodão que já cresceu tanto assim? Eu levanto em prantos internos incontroláveis porque ela me viu e me vendo não posso mais fugir de existir. Chá com leite e canela para um dia que estava quase frio. A geléia esta vibrante e quente, a própria fruta adoçou a si mesma. Café preto. O dia estava mais claro e o som acumulava acordados. A mesa posta, as garotas, um talher batendo no outro, era macio aquele alimento. Um bocejo apareceu. Mas era dia, dia vento. Me sento na ponta da mesa, estavam todas mastigando, sabia cada dente. O pré molar, molar, caiu um primeiro, o segundo. Os olhos se fecham pouco a pouco dando trégua à luta de estarem atentos. O terceiro dente. O sono vem, brando, depois profundo, duradouro, daqueles de quem sonha. Os olhos se fecham,  tudo relaxa, dorme, dorme para renovar. Dome para reconectar. Dorme.


Escute. Silêncio.
 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Desamarrar emaranhados amarrados

Em cena.

A inevitável constatação de que o que acreditou não era.
Como?
Passa a ser a sua escolha.
Qual?
Ficou determinada uma moral, um jeito, uma imposição velada.
É...
Mas pode ser nova, quer dizer, sua. Pra variar. Não imposição, observação.
Será?
Não provei nada com tanto sabor quanto a liberdade, e olha que só vem vindo.
Bom.
"A gente só ficou em função de gostar de fazer o que a gente estava fazendo"
Quem?
Meu primo, no almoço da família, difícil ouvir inteireza como essa. Viu o que é possibilidade?
Sim.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Começar de (o) novo

Janeiro.

Vamos mudar, dizem.
Minha boca está calada enquanto isso.

Novo ano, iniciemos.
Já está iniciado há tanto tempo, por onde temos de ir agora? Uma longa estrada vem sendo percorrida, caso não saiba.

Janeiro, fazer aquilo tudo que sempre quis.
As articulações do desejo são curvilíneas assim como eu, toda, da psique ao corpo.

Mas era do corpo mesmo que eu falava.
 Ah, mas pensei que havíamos deixado a superfície e navegaríamos adentro.

É tempo de mudar, te digo, aproveite que é ciclo novo.
Eu entendo e respondo que a mudança está de fato instaurada e bem antes e bem depois da insistência em mês um.

Pois olhe bem pra você e se pergunte onde melhorar.
Eu te direi que melhor e pior é todo dia.

Faz uma limpeza, dieta.
Dieta, fome, corpo errado, os tempos mudaram. Hoje o alimento é a integridade e depois seguir com ela, que te acompanhe com coxa bem grossa e macia de banho quente. Aí cuidar pra que o preparo dos alimentos seja tão rico quanto isso.

Janeiro.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Início

Na terapia o bom sábio conta o velho sábio:


Andei pela estrada, vi o buraco e caí no buraco.

Andei pela estrada, vi o buraco e caí no buraco.

Andei pela estrada, vi o buraco e caí no buraco.

Andei pela estrada, vi o buraco e caí no buraco.




Andei pela estrada, vi o buraco e desviei do buraco.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Rito Mutu al

Festas e votos de acontecer diferente.
Os ritmos interiores pulsam,
encontrar onda nova, sair da velha conhecida.

O banquete logo será servido.
Romã, fita azul, branca, amarela, calcinha, patuá,
folha de louro, canela, samba pra Iemanjá.

Come o bicho que não anda pra trás,
lentilha, sete sementes, nove, guarda na carteira, joga em cima do ombro,
pisa na grama, mergulho no mar, ojalá!

Conecta: a si, mesmo.
Então: ano novo.




quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

As Deusas

Estão todas em roda, atuantes.
Cada hora um pouco de sua vez.
Me encontra cabeça de porco, cabeça de touro e o ventre.
Solares, sombrias, avassaladoramente sutis.
Chama de um lado, o avesso.
À beira mar do mergulho,
não me deixam sem.
Uma me conta do seu corpo labirinto, tonterias, esconderijos.
Outra que diz: vá bem fundo, minhas mãos do chão impulsionarão seu corpo para o retorno.
Quase sem ar aprenderá a (re) respirar tão ouro quanto é.








quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Perséfone

A donzela colhe flores e mel
dança doce sem pisar o chão.

O deus, pasmo de amor, agarra sua cintura
nada se solta dessa força descomunal, criatura.

Deixe que eu te leve dentro,
para baixo, para baixo.

A terra chama, em volta toda dor
nada mais que semear nem em ti ou lugar algum.

Volte para mim, volte.






quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A dora

Almoço no domingo.
Receita da família, segundo a memória da hora.
Ela, amorosa, vem nos visitar, se senta confortavelmente e observa.

Cada coisa tem o seu lugar, pensa.
Além tempo.

Azeitona preta moída no azeite,
pimenta vermelha e fresca,
tomate, abacate, limão, coentro,
mostarda arde, vapor, estalo, suspiro.

E o pão.

Ela disse, era a alegria no início de cada mês, era um dia, somente um dia de pão.
Lembrava a si própria em casa de 7 filhos, um pai e uma mãe, todos juntos, bocas desejantes, olhos sendentos e corações transbordando.

Seu afeto cruzou o meu e nos alimentamos.
Aos poucos compreendemos a saciedade e sua medida precisa.

Iguaria.



quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Mostra

Mostra-me
a imagem que constrói uma ponte
e essa ponte te leva bem mais perto
de você.

Caminho-me.


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Sabático

Em tempo, segunda é boa como domingo.
Casa é carente e a suculenta.
As horas de respeito contribuem para toda criação.
Abraços amorosos são distribuídos pelo vapor da pressão o da panela, claro.
Feijão preto na hora, cenoura espaguete, semente de girassol em quase tudo.
Além do filme, da discussão e a opinião, da rivalidade sadia de dividir a vida.
Corpo alonga, cabeça alonga, almalonga.


quinta-feira, 18 de julho de 2019

Efeito

Parou na esquina e o semáforo abriu. Olhou para o relógio de pulso e depois para o céu. Escutou um apito de longe e do outro lado da rua alguém acena em direção a ela. Fecha levemente os olhos para ver melhor. É ele. Coração dispara, há tanto tempo não o via. Coração. Meu coração. Sente todo sangue fluir ardendo. A boca seca. Vai conseguir dar o passo? Semáforo está amarelo. Demore, demore tempo por favor. A roupa que veste está velha e um pouco suja, ele saberá, nota sempre os detalhes da vaidade. Há tanto tempo não o via, está cansado, sei de longe. Sinal vermelho. Pedestres seguem. Sangue. Coração. Boca. Desejo. A última noite. Ele não disse nada. Covarde. Tinha outra. Outra. Coração. Boca. Raiva.

- Oi! Você!
- Sim, eu.
- Você tá bem?
- Ótima!
- Eu também.
- Que ótimo!
- Sim! Bom te ver!
- Adorei também.
- Bora marcar?
- Bora!
- Legal então.
- Legal.
- Até.
- Até.





Tá verde. A vida corre.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

(en) cara

A resposta que me deu foi a que não pude ouvir de mim.
Por que?
Era cruel demais para sair,
ficava dentro consumindo células.



quinta-feira, 23 de maio de 2019

O fantasma era o pote de colheres de pau caído da janela.

É madrugada, um barulho, alguém está na casa. Boca seca, coração dói. Estou ouvindo, está perto. Pulsa a dor do medo. Arrepio de corpo inteiro. Não há onde me esconder. Serei ferida. Vou pular a janela. Vou me quebrar da janela. Olhos arregalados. Deserto escuro. Garras imaginárias apertadíssimas e afiadas. Pulsa a dor do medo.

Quem me invadiu?


quinta-feira, 16 de maio de 2019

quinta-feira, 4 de abril de 2019

quinta-feira, 28 de março de 2019

Leitura

Sabe quando você acreditou que não tinha valor, voz, saída?
Um quase nada de migalha no chão.
Você quase acreditou.

Agora te acolhe em teus próprios (a) braços.

Maria Laura Cesar






quinta-feira, 21 de março de 2019

Acupuntura

- Vai doer?
- Provável que sim, mas não muito. Só quando precisa.
- Mas quando precisa?
- Quando você não vê, maltrata, agride, fere, boicota.

Respiração profunda e olhar compenetrado.

- Já vamos começar assim tão rápido? Não estamos nem a duas horas aqui! Será que você tem todos os elementos que precisa? As informações? Digo, não é melhor pensar um pouco, elaborar um sistema e começar outro dia? Eu tenho horário na quin....
- Vamos suba, tire os sapatos, deite para cima, me conte seu dia. Está tudo bem. Sorri calma.

Primera agulha.
Estrategicamente quase não se sente.

- Eu dormi mal sabe, acordei muito na noite, de manhã caindo de sono, caindo da cama, tropecei, pé doendo, tudo inchado. Sonhei muito, tinha um monte de gente. Onda, família, carro. Comi o de sempre, farinha, gordura, tudo quentinho, com geléia de figo que minha amiga me deu lá da Argélia. Ela estuda literatura lá. Loucura. Queria comer fruta e aveia, mas...

Aaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Inspira, expira, inspira, expira. Morde.
Olha para o quadro na parede com rim desenhado no dedão, fígado na orelha, animais voando pelo céu, uma onda Chagall. China. Shaimum.
Inspira, expira, inspira, expira.

- Pronto. Pode descer.
- Sério?

Ri acolhedora. Espere amanhã, ela diz, você vai melhorar. Estamos cuidando de você.
Confiei. Sim, sim, sim.
Estou vendo.

Maria Laura Cesar