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terça-feira, 26 de abril de 2016

Imóvel

Não sei porque fiquei.
Mas, fiquei. Depois de ter gritado muito, explicado o que estava acontecendo em detalhes, falado do que sentia até chorar e nada. Do outro lado, ele apenas falava: “foi um mal entendido”. Me sentia totalmente sozinha, porque poderia ser sim um mal entendido o fato pelo qual a briga começou, mas estava com uma sensação que o mal entendido estava na relação em si.
Fui cansando, meu corpo foi pesando e eu me encostei na cadeira que ficava perto da janela. Eu adorava aquela cadeira desde o primeiro dia que entrei naquela sala. A cadeira estava em uma posição perfeita, perto da janela, diante de uma paisagem de tirar o fôlego. Eu era totalmente apaixonada por ela e fui em busca de acolhimento. Logo depois, sentei na cadeira e desfaleci.
Não saberia precisar quanto tempo fiquei ali e quando foi que ele saiu. Mas, eu fiquei. Imóvel na cadeira que era minha, mas já era outra. Fiquei ali diante da janela, como quem encontra uma paisagem pela primeira vez.

Carla - 26/04/2016

terça-feira, 19 de abril de 2016

Forma de escutar.

Hoje na rua embarquei em uma conversa solta de uma estranha. Era uma mulher jovem, de cabelos vermelhos, vestido azul e sapato amarelo que dizia sem muita paciência: "... tanto faz a forma, o que importa é o conteúdo..." E continuou a andar e a conversa se foi. 
Mas ficou em mim e eu não acreditei no que ela falou. Justo ela que tinha uma forma tão descolada! Como assim a forma não importa? Se ela estivesse de pretinho básico vai lá, mas a imagem dela não era de ter vestido a primeira roupa que viu. Tinha uma estética ali e portanto um discurso.
Passei o dia discutindo com essa jovem. Em alguns momentos a forma é que faz o conteúdo ser possível. Como assim não importa? Se estou em um país livre, a forma como eu penso, sinto e vivo é uma possibilidade de ser, totalmente contrária a de alguns regimes. 
Enfim, terminou o dia e resolvi desembarcar dessa discussão de forma e conteúdo. Passo por uma mulher e seu filhinho e escuto ele explicar com todos os detalhes que "... faz toda a diferença ela dar para ele uma bola de futebol e não de basquete. As duas são bolas, mas não servem para a mesma coisa, da pra entender, mãe?" Pensei comigo: dá sim! 

Carla - 19/04/2016

terça-feira, 12 de abril de 2016

Onde não se existe mais.

Voltei para aquela sala de espera em que vivi tantos momentos. Me vi distante e percebi que nunca tinha parado para pensar o quanto nossas histórias estão ancoradas no espaço. O quanto aquela sala tinha acolhido a minha tensão, a dor de não saber o que viria depois e as lágrimas que transbordavam porque já não cabiam no corpo.

Logo me veio a imagem daquelas pessoas que voltam para a cidade da infância para visitar a sua casa e descobrem que a casa não existe mais. Fiz isso uma vez, com uma casa em que passei uma temporada de verão. Quando voltei, existia uma casa, mas já não era a minha. E, a árvore que me acompanhou nessas férias, já nem mais existia.

Para onde vai essa infância? Onde ficou a árvore? Apenas nas minhas lembranças? Mas, onde ficaram as marcas das paredes, as janelas abertas para a rua, os detalhes da lajota? Para onde vai tudo que eu fui ali?

Carla - 12/04/2016

terça-feira, 5 de abril de 2016

Como contar - parte três

(...) As viagens sempre organizaram as minhas histórias, sentimentos, desejos e angústias. Era o movimento de tomar distância e ver o todo. Essa viagem "às escondidas" não estava sendo diferente. Ao menos na intenção.

No dia do embarque, senti o de sempre: aquele frio na barriga do que estaria por vir, do que iria ver e do que estava ficando para trás, com um gostinho a mais que só em segredo podemos experimentar.

O voo foi muito tranquilo. Levei um livro e dormi por muitas horas. Chegando lá, desembarquei com uma sensação de conquista e fui em busca da minha mochila. Apareceu logo de cara e pensei: essa viagem está sendo como eu precisava. Já de mochila nas costas e quase na saída do aeroporto, tudo aconteceu. Não consigo estabelecer uma continuidade na minha memória. Lembro que estava saindo do aeroporto e no segundo seguinte já havia caído.  Estava no chão. Não consegui reconstituir a narrativa. Estava andando e...? Por quê estava no chão? Não consigo completar essa lacuna. Estava estatelada no chão, não via muita coisa, tudo era uma fumaça só. Fiquei imóvel, sem ver, respirar e sentir absolutamente nada, não sei por quanto tempo. Os sons começaram a chegar em mim. Escutei gritos, choros e senti uma mão me puxar. Era um rapaz, que me perguntava descontroladamente se eu estava machucada. Pensei: como posso estar machucada? Só estava saindo do aeroporto, andando calmamente. Quando levanto meus olhos para ver em volta, só consigo responder: estou viva.

Formou-se um grupo de quatro ou cinco pessoas e resolvemos ficar juntos até entender o que estava acontecendo. Por decisão unânime, iríamos sair do aeroporto. Só não imaginávamos encontrar lá fora a mesma destruição. Não sei falar o que estou sentindo, passadas doze horas de tudo e já instalada em um lugar “seguro”. Não consigo sair daquele aeroporto destruído. Um policial me avisou que teria 15 minutos para ligar para o Brasil e avisar o que havia acontecido. Eu não sei como contar, ninguém sabia que eu estava ali. Tenho a impressão de ser um personagem que entrou na história errada. A ligação completa e só consigo falar: estou viva!


Carla - 05/04/2016

terça-feira, 29 de março de 2016

Como contar - parte dois

(...) Estava sozinha quando decidi viajar e não avisar ninguém. Já me sentia sozinha há algum tempo e não tinha porque compartilhar isso com alguém. E, também, gostei da aventura de comprar uma passagem, arrumar as malas e ir.

A escolha pelo lugar se deu pelo tamanho do tédio que ultimamente me acompanhava. Fui para um país onde minhas fantasias já tinham me levando algumas vezes. Aliás, se existe uma coisa que sempre me ocupou, desde a infância, foram minhas fantasias. Escolhia um canto da casa e ali inventava todas as outras vidas que teria quando fosse adulta. Não imaginava o quanto isso determinaria a mulher que viria a ser. A mulher adulta que compra uma passagem, não avisa ninguém e vai. Vai em busca de uma outra vida, com menos tédio, assim esperava.

Nunca imaginei que seria perigoso ou que estaria dando um telefonema como esse, para avisar onde estava e contar que estava com problemas. Como iria imaginar que tudo iria pelos ares? Enfim, aquilo que teria começando apenas como um símbolo de independência e liberdade, terminou em algo extremamente estúpido. E o que me restava era um telefonema de quinze minutos para explicar algo que aconteceu em segundos e que mudaria tudo.

Ainda continua na próxima terça...

Carla - 29/03/2016

terça-feira, 22 de março de 2016

Como contar - parte um

Falaram que eu tinha direito a um telefonema de 15 minutos.

Como iria explicar em quinze minutos como cheguei ali e o que estava acontecendo.

E, ainda contar que ninguém poderia fazer nada para me tirar dali.

Tudo isso em 15 minutos.


Continua terça que vem...

Carla 22/03/2016

terça-feira, 15 de março de 2016

A queda foi de quem?

A única certeza que tinha é que era inverno. Não sentia mais meu nariz e a sensação era que meu rosto iria rachar a qualquer momento. Estava em uma estrada de terra e tomada por uma neblina muito densa que não me deixava enxergar nada. Por isso, resolvi me concentrar nos meus passos, um pé na frente do outro. Essa é a melhor forma de andar por um caminho que nos cega, um passo por vez.
Não sabia ao certo o que estava fazendo ali e na dúvida continuei andando. Depois de um certo tempo percebi que estava ali mesmo para andar. Caminhando já sem neblina e podendo voltar meus olhos para frente e não mais nos meus pés, vi longe uma árvore solitária em cima de um monte com suas folhas todas vermelhas. Era única e passei a caminhar até ela. Já sabia para onde estava indo, mesmo que não soubesse exatamente o porque.
No decorrer do caminho até a árvore, percebi que quanto mais caminhava, mais as folhas da árvore caiam. Era uma queda suave, mas constante. Comecei a pensar que no momento que chegasse na árvore, ela estaria nua, não haveria mais nenhuma folha. Caminhava em direção a algo que já teria outra forma quando chegasse perto. E no momento que alcancei a árvore, as últimas folhas começaram a cair. Antes mesmo que as folhas tocassem o chão, nesse intervalo entre estar na árvore e estar no chão, meu corpo despertou. E, tive a sensação que tinha sonhado com algo importante, mas não lembrava o que.

Carla - 15/03/2016

terça-feira, 8 de março de 2016

Seis palavras

Com data marcada a dor entrou.

*exercício de contar uma história com seis palavras! 😉

Carla - 08/03/2016

terça-feira, 1 de março de 2016

Meu testamento, minha vontade.

No fim descobrimos que não resta nada para deixar.

Aquilo que fica passa a ser outra coisa e muitas vezes se esvazia da nossa pessoa, virando apenas tralhas na casa de algum parente.

Sendo assim, no auge dos meus 7 anos decidi que não deixaria nada para trás.

Que só olharia para frente.

E, que quando morresse o que estaria escrito no meu testamento seria apenas registros do que fui.

Caso isso interessasse a alguém, haveria um caderno cheio de fotografias de todas as viagens que teria feito e pistas da mulher que eu fui.

Porque no fim só sobra um rastro daquilo que fomos.

Carla - 01/03/2016

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Na tentativa de seguir...

Nora chegou à cidade e teve certeza que escolheu a melhor época do ano - outono. Caminhava pelas ruas em direção ao museu e tinha a impressão de estar em uma pintura. As cores que tomavam a cidade eram todas quentes. Cores que ela passou a vida inteira a perseguir. Realmente passou uma vida em vermelho, laranja e dourado. Programou essa viagem inúmeras vezes na sua imaginação, talvez, a partir do dia que entrou em contato com a pintura. Tinha treze anos e resolveu fazer aulas de pintura no colégio na tentativa de evitar horas livres em casa na companhia de um irmão chato. Não aguentava mais aquela relação, onde sempre levava a pior e acreditou que passar mais tempo na escola resolveria o problema. Não seria mais o alvo do irmão que na época atirava sua raiva e frustração em quem estivesse por perto. Se seu irmão era marcado pela raiva e agressividade, na primeira aula de pintura percebeu que sua marca seria a cor. Ela passou a tentar alcançar as cores em todos os lugares e momentos, até mesmo nos rompantes do irmão. É como se ali ela tivesse ganho seu filtro. Era a partir das cores que experimentaria tudo.

Caminhando até o museu, recordou essa cena inicial com a pintura, as cores e pensou no irmão. Ele tinha sido de alguma forma o responsável por ela ter encontrado a sua arte. E, também, pensou em quanto a vida do irmão lhe tinha ensinado sobre algumas cores e sombras: o escuro, o preto, o cinza e no fim, o vermelho, que tomou conta das últimas cenas da vida dele. Quando chegou ao hospital para tentar entender o que tinha acontecido, o encontrou rodeado de médicos, com seus aventais brancos encardidos, o verde desbotado das paredes e o corpo do irmão como se tivesse sido pintado de vermelho. Estava com o corpo inteiro vermelho, como se o seu sangue fosse uma tinta. O acidente fôra fatal, e ali percebeu que seu irmão sempre havia escolhido essas cores e suas intensidades. Não podia ter sido diferente. Quando Nora chegou em frente ao museu, aquela cena inicial com a pintura já ocorrera há vinte anos. A morte de seu irmão há dez e ela estava com trinta e três e sem cor alguma. Sua pele não era branca, era pálida, era a ausência total de cor.

Entrou no museu sem sua cor e logo reparou como esse lugar era familiar, independente do local do mundo em que estivesse. As cores começaram a chamar a sua atenção. Deu vontade de olhar quadro por quadro, mas sabia que tinha vindo para ver o quadro, um quadro específico. A pintura que a definiu nos últimos dez anos. Antes mesmo de chegar na sala onde a tela estava exposta, sua memória trouxe cenas que havia vivido em função desse quadro. Lembrou da primeira vez que entrou no estúdio do Homem que a ensinaria muitas coisas a respeito de pintura e do viver. Foi exatamente seis meses depois da morte de seu irmão e ela estava transtornada. A morte dele lhe tirava a força de uma época infantil e sendo assim não conseguia mais permanecer aos cuidados do professor de pintura da escola. Um amigo de seu pai disse conhecer um artista plástico de muito talento e se ofereceu para fazer as devidas apresentações. Nesse instante, pensou que o amigo do pai também era responsável por ela ter sua arte. Sem sua influência nunca conseguiria chegar perto do Homem que mudaria tudo, todas as cores.

Chegou na sala onde a tela estava exposta e antes mesmo de se colocar na frente dela, parou para olhar à distância. Havia um grupo de turistas fotografando euforicamente o quadro. E isso fez com que ela ficasse à distância. Primeiro porque não entendia como alguém que pretendia contemplar uma pintura pudesse fazer tanto barulho; segundo que não aceitava como alguém deixava de olhar o original para tirar tantas fotografias que depois nem iria rever; e, por último, percebeu seu nervosismo, sentiu um calor subir pelo corpo e chegar ao seu rosto. Sabia que estava levemente vermelha. Enfim, não era um encontro qualquer, era um encontro com o quadro que permeou os seus últimos anos.

Ainda de longe, lembrou a sua primeira visita ao novo professor. Ela esperava mais compaixão da parte dele, até por imaginar que o amigo do pai lhe tivesse contado a respeito do luto pelo irmão. Mas não. A primeira pergunta que o Homem fez foi: "qual é o traço da sua perda?" Ficou imóvel, não conseguia dizer nada e nem pensar em nada. Com os olhos cheios de água percebeu que não sabia qual era o traço que a morte do irmão tinha inscrito nela, apenas lembrava do vermelho, do sangue. Decidiu responder: "só tenho uma cor, vermelho". O novo professor rapidamente se deu conta que aquela garota não tinha elaborado muito, não havia nenhuma escrita nela a respeito da experiencia da morte, apenas uma mancha. E, delicadamente a levou para frente de uma mesa com todas as tonalidades de vermelho que ela pudesse imaginar que existiam. Diante das tintas ela só pôde chorar. Ele era a primeira pessoa a entender o que se passava nela.

Começou a frequentar o estúdio três vezes por semana de tarde até a noite. Eram dias esperados e mais que isso, desejados. Eram os espaços em que podia viver suas dores e cores. Ela lembrou disso tudo com sorriso nos lábios e com a devida distância que ainda precisava manter do seu quadro. Ela sorriu ao perceber, de forma ingênua, que ali naquele momento de dor com a morte do irmão, achava um lugar para de novo evitar sua casa, que hoje não era povoada por rompantes de raiva do irmão, mas pelo silêncio fúnebre dos pais. As coisas tinham mudado muito, mas as cores para ela continuavam as mesmas.

Os turistas se afastaram e ela precisava chegar perto do quadro. Tinha uma dívida diante dessa obra, essa pintura que lhe ofereceu tanto. Nunca poderia deixar de fazer reverências a essa tela. Quando olhou de frente o quadro era como se tivesse diante do espelho. Aquelas cores, traços, os amantes, a moldura, tudo fazia parte do que ela tinha se transformado. O gosto do vinho na boca, a música, as risadas e os corpos enlaçados tomaram seus pensamentos, como se estivesse vivendo aquele dia em que viu pela primeira vez o quadro. Permanecia hipnotizada, como no passado, pelo erotismo que estava retratado ali. Era a primeira imagem de vida, depois de tantas de morte que olhou e pintou. Aquele quadro representava a possibilidade de viver. Chegou a fechar os olhos e ouvir a voz do Homem que lhe apresentou o quadro: "quando você estiver na frente desse quadro a única coisa que te peço é que me dedique suas lágrimas". Elas, as lágrimas, vieram imediatamente. Seu pranto silencioso diante de uma obra que a recolocou na vida. Quanto à dedicatória, não sentia que poderia fazer. Não poderia dar lugar a um outro antes de dar lugar a si mesma. Ficou com as suas lágrimas e suas lembranças.

Carla 23/02/2016

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Interrogação.

Ele simplesmente olhou nos meus olhos e perguntou: quem é você? Quem você é de fato? Não tive muita certeza do que responder. Ele tinha me convidado para ir a um restaurante que gosto muito e imaginei que seria uma noite agradável. Mas, não. Assim que cheguei, sentei, olhei para ele e escutei a pergunta: quem você é de fato?

Se fosse ao fim do encontro, com todo o vinho que imaginei beber, seria mais fácil responder. Mas, de início, sem contexto e sem alcool, a pergunta abriu um vazio imenso. Quem era eu? Onde estaria essa resposta? Ou essa imagem? Nada encontrei, apenas abismo.

Nem lembro direito como foi o restante do jantar. Acho que rimos, conversamos sobre política e cinema, acredito que nos beijamos, mas não tenho muita lembrança de como foi. A única memória dessa noite foi o vazio sentido. Queria formular algo, ter uma opnião, uma bela figura que respondesse o tamanho do vazio que sentia.

Sentia um vento gelado percorrer o meu corpo, apenas sentia o vento em mim. Eu era apenas vento e o que falar? É algo que só existe em movimento, não se pega, não se prende, apenas passa. Se é bom ou ruim? Essa não seria a questão. Talvez isso dependa do contexto. No fim, não temos nada para entregar, apenas algo sentido.

Carla 16/02/2016

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Olhar

No silêncio da sala, meus olhos buscavam algo que nem eles sabiam o que era. De repente, como se acordados de um sono profundo, encontraram uma janela enorme de madeira. A janela na cor verde escuro, aberta, era uma bela moldura para o mundo lá fora. E meus olhos simplesmente estacionaram nessa janela. Minha memória mais remota tomou a frente da cena e imediatamente eu escutei música lá fora, como se estivesse passando um bloco de rua. O sol estava a pino, a luminosidade que entrava pela janela irradiava a sala toda. Tanto quanto a luz que entrava pela janela, a sensação era que as pessoas também entravam. Algumas pessoas passavam na frente da janela, outras paravam, outras se apoiavam no batente, outras cantavam e dançavam e tudo acontecia ali, diante da janela.

Os confetes e serpentinas pulavam bem na frente dos meus olhos se misturando com as fantasias coloridas e brilhantes. Para uma criança de quatro anos, tudo aquilo era um reino encantado. Mal conseguia piscar, na tentativa de não perder nenhum momento daquilo que acontecia ali diante dos meus olhos. Eu estava no colo da minha mãe, fantasiada de bailarina, com meu tutu rosa e com uma coroa de princesa na cabeça. Estava imensamente feliz com tudo aquilo, radiante de fazer parte daquele reino. Aos quatro anos não sabia de nada disso, mas agora com os meus olhos fixos nesse momento, percebo o quanto estava feliz. Na época, meus pequenos olhos iam de um lado para o outro em busca de todas as cores que pudesse achar, como se quisesse colecioná-las. Meus olhos estavam me levando para longe e eu queria ir, queria voar. Foi ali que começou a minha vontade de ir, de ir embora, de ir de um lugar para outro, de ir de um sentimento para o seu oposto. Ali naquela janela foi a primeira vez que fui embora, que fui para longe, mesmo que enlaçada pelos braços da minha mãe, sem ter saído da janela em momento nenhum.

Carla 02/02/2016

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

FaltAR

A vida se apresenta quando nos tira o ar. Aquele milésimo de segundo em que paramos de respirar e sentimos que tudo pode e vai mudar. Talvez, nunca iremos nos recuperar desses momentos sem ar. Quando o ar some, o corpo se paralisa e algo gelado percorre você por dentro. Nada do que se tenha feito até ali nos prepara para o momento em que a vida se apresentará.

A falta de ar que alcança um pai ao saber do nascimento do seu filhinho, aquele segundo onde se espera um sinal de que tudo foi bem. Uma mãe diante de uma filha que vai embora - quando vamos nos ver? Será que vai ser feliz tão longe? Alguém na frente de um médico esperando um diagnóstico - o que acontecerá com o meu corpo? O que vou passar? É sempre nesse segundo de falta de ar que a vida apresenta o que ainda virá.

Engraçado a vida se apresentar na falta de ar, não? Não é porque respiramos que estamos vivos? Parece que não. É quando nos falta ar que nos damos conta do que se é e do que se pode ainda viver.

Carla - 26/01/2016

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Sem retoques.


Todos os dias a cena era exatamente a mesma: ela levantava, caminhava até a cozinha, preparava seu café e depois se vestia para mais um dia. Saia de casa com uma determinação visível em seu corpo, como se estivesse a caminho de algo que exigiria grande esforço.

Quando chegava à entrada do teatro, sempre parava e lhe lançava um olhar. Olhar de reconhecimento do espaço e de si. Todos os dias chegava precisamente no mesmo horário, sentava rigorosamente na mesma poltrona do lado esquerdo, mais ao fundo e conferia o relógio. E, logo, ficava irritada com qualquer atraso.

O ensaio começava e ela fazia parte de todo aquele cenário. Era a menina que religiosamente assistia aos ensaios e depois simplesmente ia embora. Como se cumprisse uma missão. Oficialmente, não fazia parte de tudo aquilo, não fazia parte da orquestra, apesar de todos ali a reconhecerem. Nunca tinham trocado nenhum palavra. A única relação que se estabelecia era o olhar.

Quando o ensaio começava, ela nem piscava, não desgrudava os olhos dos músicos e nada passava do seu crivo. Por fim, o pensamento claro de que se fosse ela no palco, nada precisaria de retoques. Levantava e voltava para casa com a certeza da sua perfeição. Perfeição sustentada em seu corpo imóvel na poltrona, sem qualquer risco de fracassar. Todos os dias, sentada na pláteia, ela era a violinista irretocável, a obra prima por essência.

Carla 19/01/2916

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O tempo que não me pertencia.

Estranhei a presença de todos no aeroporto, mas nunca esperava receber tal notícia. Entre abraços, beijos e choros um dos meus irmãos tomou coragem e falou: "Nosso pai faleceu no mês passado."

No momento exato da notícia não consegui me concentrar na informação da morte do meu pai. Só consegui pensar onde estaria no mês passado. Já faz algum tempo. Quem eu era no mês passado? Não me comovi com a notícia, apenas flutuei nesse tempo que existiu entre o momento da morte e sua notícia. Nem sequer perguntei como ele morreu ou o que aconteceu. Só pensava em como vivera um mês inteiro com a ideia de que tinha um pai vivo. Fiquei um mês sendo filho de um pai morto sem saber. Depois, consegui perguntar algo: onde ele está? Ou melhor, onde foi enterrado? Enquanto perguntava, dentro de mim estava fazendo um enorme esforço para tentar encontrar onde eu estava há um mês. E a primeira coisa que lembrava é que estava em um país que não era meu, mas com a sensação de ter encontrado um lugar.

Sentei na mala, o único objeto que me dava referências. Sabia exatamente o que tinha trazido. Arrumei de forma sistemática tudo que iria me acompanhar nesse retorno temporário para resolver questões burocráticas. Só não imaginara que teria que resolver a ausência total de burocracia quando se tratava da morte do meu pai. Diante de mim, uma família que vivenciou toda a burocracia, ritos e encontros que uma morte exige - obituário, corpo, velório, enterro, missa de sétimo dia e de um mês. Eles todos sabiam onde estavam no mês passado e eram detentores de um acontecimento que não me pertencia. Eles choravam ali um pai que tinha morrido e eu chorava um tempo de um pai morto.

Me senti excluído e impossibilitado de viver tudo aquilo. Teria que matar meu pai sozinho, sem corpo e acontecimento, com retalhos do que escutaria e do que vivi no último mês. A notícia não anunciava nada naquele momento. Teria que ficcionar a minha história, o meu momento de perda. Não havia
perdido meu pai ali, quando minha família me dava a notícia. Perdi meu pai em um tempo que vivia
sendo filho de alguém morto.

Carla Paiva - 12/01/2016