quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Salão de Festas

Durante a música, aproxima-se.
Passo e ritmo.

Não escuto mais a sua voz.
Nem um sussurro sequer.

Você soltou minhas mãos.
Enquanto amorosamente me agarrei a elas.

Aos poucos a distância cabe: um lugar.
Estou aqui.

Ao meu lado.
- Vem?
- Como?

Dançar, dançar.

Maria Laura



sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

City shots



A sexta-feira era de primavera. A temperatura quente prometia uma tarde sofrida na metrópole agitada e barulhenta. De repente a chuva, intensa, molhada, aliviando os corações. Naquela avenida movimentada, carros e motos seguiam sem mudar a velocidade. As pessoas, essas também, não mudavam o ritmo. Era sabido, ninguém mais se abalava diante de uma tempestade imprevista. Chuva boa.
No ponto de ônibus as pessoas se espremiam, inclusive com seus guarda-chuvas abertos. O casal de jovens, carregando o cachorrinho preto pela coleira, voltava com a orquídea de presente embrulhada num saco preto. Os pedreiros animados com o fim do experiente, alegravam-se com a promessa da cerveja do fim do dia. O desespero do desempregado dá lugar ao delírio do artista no palco, cantando no meio da avenida, entre o vai e vem dos carros, a melodia de louvor ao deus que insiste em castigar os pecadores encarnados. Um ônibus chega, alguns entram, seguem seu destino. 

Simone de Paula -14/12/2017

Conto inspirado na cena urbana do dia 08/12/17, na avenida Dr. Arnaldo em São Paulo, sentido Perdizes. 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Aniversário

Inteira
em cada pedaço.
Revelada
no outro que não supre
e nem deverá.
Para que enfim, eu seja.

Maria Laura


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A surpresa

De repente, pende na minha frente, balançando solto no ar, aquele que é um dos bichos mais misteriosos que conheço.
Minha primeira reação é a surpresa, porque surge diante dos meus olhos, vindo do céu, de um tamanho bem diminuto e sem asas que permitiriam que estivesse ali. 
Procuro a teia, não acho. 
Como ela chegou assim, sem vir tecendo e descendo devagarzinho?
Veio. 
Ficou balançando diante de mim, dos meus olhos. Transgrediu a gravidade e agora fica dominando meu olhar. Diante do fascínio de vê-la permanecer levitando no ar, minha cabeça tenta pensar o que fazer ou se é venenosa. Mas nada provoca em mim algum tipo de movimento. 
Quero parar o tempo nessa beleza do mundo. Não consigo, ela some, do mesmo jeito que apareceu. 
Procuro, não acho. Já valeu.


Simone de Paula - 5/12/2017



quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Peça

Entraram em cena.
Talheres, barulho, voz.
Respire fundo, aqui exploramos um terreno íntimo.
Somos todos convidados. 
Deveria ter nascido como desejo.
E fui o que eu nem sabia.
Inconsistente e imprecisa. Perfeita na medida de não caber.
Devorada pelo fantasma de uma (s) vida corroída.
Retorno e me visto do que imagino que deveria, em forma.
Abraço um pai, uma mãe, um bebê desnudo, aprendiz.

Aplauso. Fim.
Em reconhecer-se.

Maria Laura


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Lágrima

Diante da lágrima que se precipitou do seu olho, pode ver com maior clareza, no tamanho exato da necessidade da sua visão, a letra que insistia em ser uma bailarina incansável que se movia sem coreografia certa.
Viu, muito brevemente, viu. Foi maravilhoso, mas secou a lupa que tinha se formado no seu próprio corpo. Rolou a lágrima, perdeu o foco, chorou.


Simone de Paula -21/11/2017

Ciranda

Algo em você sabe que um momento gira para o outro 
preparo requintado que leva tempo, desejo
parece que não está certo ser tanto por coisa tão pequena
esqueceu que as medidas não são cores primárias,
mas infindáveis: temperatura e ar 

espero

amorneço.

Maria Laura