sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Conto da Lua nº 10

E vem chegando discreto, sério, levemente curvado.

Sem amor, sem calor, pronto pro trabalho. 

Cenho franzido, semblante sisudo,  não sabe rir direito, nem brincar solto, se sente meio desconfortável nesse lugar.

O pai, cadê meu pai? A mãe esteve lá, mas pensando em outro lugar.

Quer ordem, regra, reconhecimento, tudo que garanta que fez certo.

Não quer mudar, cobra pelo combinado. Não tem jogo de cintura, dança duro pra tentar acompanhar.

Quer amor, calor, aconchego, mas quando chega perto, se sente preso, quer soltar.

Se isola, mesmo desejoso de fogo, gente e carinho.

"Faz um cafuné em mim, por favor, mas não gruda, não!"

E essa lua madrasta, que não consegue pegar o filho no colo e amar incondicionalmente. Lua caprica, iluminando o alto da montanha.

E o filme sugerido é The tender bar, nesse universo dos homens: pais, filhos, avós e tios, todos tentando se apoiar pra não cair.

Simone de Paula - 01/9/23



sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Conto da Lua nº 1

Se eu quero te pegar, pode vir quente que eu tô fervendo.

Não importa quem é você, só eu mesmo interessa. 

Velocidade, intensidade, agressividade.

Impulso físico, verbal, sexual.

Não encosta que eu te empurro. Não me olha que eu te encaro. Mas não fica parado, porque senão eu bug-o.

Eu funciono como o risco de fósforo: barulho, labareda, queima rápido e deixa fumaça. Mas logo passa.

Não quero ordem, nem demanda, só sigo meu lema.

Sou herói, soldado, sempre na frente da minha batalha.

Não espero, berro, faço tudo pra chamar a atenção.

Se pareço quieto e calado, e porque estou aguardando o próximo sinal, que me desperta rapidinho pra uma nova meta.

Não quero falar, discutir, conversar, palavras são nada. Ação, é nisso que se concentra a vida, pulsante, interessante.

Não entra na minha frente que eu passo por cima.

Essa delicadeza toda para a Lua em Áries. E a sugestão é a série Treta, da Netflix.

Simone de Paula - 25/8/23




sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Conto da Lua nº4

Minha vida, meu amor, meu tudo.
Elejo você para ser meu, só meu. Registro tudo de nós, para sempre.
Não quero o novo, não quero nada mais, só quero repetir até findar, até a eternidade.
Registros, memórias, quanto mais concreto, melhor.
Filho, casa, família. Sem vazio, sem abandono, sempre com você.
Desconfio, tenho medo. Controlo, seguro, dou um jeito de não largar. 
Se machuco, me machuco. Se me escondo, te escondo. 
Evito saber de você, para não ter que te perder. 
Não me afasto para ver se você volta. Arrisco, só quando sei que você está preso no meu laço. 
Te acompanho, insisto, me antecipo, me faço ser indispensável.
Só a morte pode te levar de mim. E com ela, uma parte vai junto. 
Pranteio sua falta, mas carrego em mim o oco que ficou no meu corpo pela sua partida.

E a Lua em Câncer veio hoje dar o tom dramático desse conto.
Um filme sugerido é Belle Époque, que me parece ter um pé nessa Lua molhada.

Simone de Paula - 17/8/23



sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Conto da Lua nº 11

A vaidade se disfarça na excentricidade. 

É preciso seguir um tanto de convencional para marcar o diferencial: faz os movimentos todos, certos, segue os protocolos, assume a posição devida, porém, só quando lhe convém. 

Não calcula ser rebelde, só é, porque ali parece ser um lugar de destaque. Precisa que tudo seja padronizado, só assim a esquisitice vai ter esse valor.

Não espera nada, é indiferente ao que quer. E não espera nos dois sentidos, tanto como expectativa, quanto como aguardo. Na hora que H, manda ver. 

Não se incomoda em ser incômoda. Não muda de opinião. Não se convence, não se acomoda. 

Também não tem pressa, nem ansiedade de sair mudando o tempo todo. Uma marca basta para a diferença.

Sabe que apoia a situação pelo inusitado, pela surpresa no outro. Não se coloca na oposição só pela treta, quando assume uma posição é pela causa.

Sabe que as coisas acontecem e nessa hora, BUM! Cai em cima dela a oportunidade de ousar, pular pra fora da moldura, entrar no palco da vida, brilhar, com o descaso de quem nunca desejou o que recebeu. 

Assim é a afetação da Lua em Aquário. Disfarça o desejo, mas exibe o feito. Segue na linha, só pra escapar a todo momento que pode. Finge indiferença, pra se manter no patamar dos ídolos. Se cerca de gente pra não precisar se unir a ninguém. Respira fundo e segue em frente.

"Tits up!"

Sob esse slogan, a série The Marvelous Mrs. Maisel me parece ilustrar bem a Lua em Aquário. 

Na personagem principal isso parece mais evidente, mas a série como um todo carrega esses elementos.

Assista se puder, muitos vão se divertir. 


Simone de Paula 11/8/23


sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Um soco

Foi um soco que me ataca em cheio no peito.

O peito afundou, cedeu, se recolheu.

O coração destroçado, faz força para , ser vivo, funcionar, mesmo diante do perigo.

A dor latente, de ontem, de hoje, pediu para eu não parar de tentar.


Simone de Paula - 04/08/23

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Toca

É tanta resposta que a gente busca que nem sabe mais qual a pergunta fundamental.

A falta do outro tá numa condição prévia que nos obriga a reiterar a existência desse outro, na mesma medida que reforma a nossa própria existência. 

Sem ele, tem eu?

Só posso saber disso perguntando e querendo receber perguntas para materializar nas respostas a presença, quase sempre duvidosa.

Como Alice, que diante das incertezas do país desconhecido, e maravilhoso, só fazia querer saber para poder estar ali como um alguém. Quando o non sense dos acontecimentos, associado aos ritmos imprevistos dessas situações, mostraram para ela que não havia tempo de perguntas e respostas, de entendimentos e explicações, finalmente ela se deixou levar pelo mais indescritível momento de vida: só vai!

Quisera eu entrar nessa toca hoje!

Simone de Paula - 28/7/23

sexta-feira, 21 de julho de 2023

Tim-tim-tim

É um sacrilégio, mas gosto muito de café e tomo o solúvel alguns dias da semana. Por falta de recursos adequados, ou eu tomo esse, ou nenhum. Optei por esse

Na semana passada, vive uma situação inusitada: o café assumiu a personalidade do músico. Coloquei o granulado na xícara, mais umas gotinhas de adoçante e, por fim, água quente. Fui mexendo com a colherinha e o som foi do mais grave ao mais agudo. Tudo como o de sempre, mas agora com som de poesia.

O gosto era o mesmo, mas meu encanto era novo. 

Tem dias que isso acontece, uma surpresa se dá num dia comum.

Simone de Paula - 21/7/23