quinta-feira, 19 de maio de 2016

Caminho

Estou de volta
Sei que cheguei em um lugar diferente, me reconheço e desconheço
Me dou conta do que me compõe
Percebo que estou viva
Há muito para fazer
Estamos abraçados, não vou a lugar algum
Todos os meus sentidos ainda estão em trânsito
Minha terra agora é ampla
Somos um novo desejo diante do que era escondido
Você me pediu para segurar a sua mão
Minha caminhada de agora em diante, é contigo
Vamos juntos
Encontrar os tons do amor

Maria Laura, São Paulo.

terça-feira, 17 de maio de 2016

A fragilidade que nos acompanha.

Eu estava lá em cima, depois de muitas horas caminhando. Tinha planejado essa trilha há muito tempo e fazia todo o sentido para representar os últimos anos da minha vida. Superação, planejamento, luta e vitória. Essas eram as palavras que tal caminhada representava. A paisagem era inacreditável! Como o mundo podia ser tão imenso? Olhar em volta e saber que não é sempre que você tem essa imagem, me tirou o fôlego. Todos estavam muito excitados com o fato de ter atingindo o topo.
Eu? Eu não consegui estar só feliz e recompensada nesse momento. Algo no meu corpo me intrigou. sentia no intimo uma fraqueza. Diria que internamente estava trêmula. Do que tremia? Tinha passado as últimas horas provando quanto eu podia, quanto conseguia ser forte. Pois é, mas parece que o recado era outro.
Meu corpo tomou conta do momento e me deixava claro que diante do 'topo' eu era outra coisa. Uma coisinha frágil, eu diria. Frágil diante do que é a vida. Acho que nunca mais vou acreditar tão cegamente nas vitórias.
          Carla - 18/05/16

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Bárbara

A imagem era a da família feliz. A típica foto das últimas férias de verão. Roupas leves e coloridas num cenário de praia paradisiaco. O que se via era o sucesso de muitas horas trabalhadas e o modelo certo a seguir.
Bárbara estampava aquela foto muito bem. Cabelos bem cuidados, com mechas douradas, um loiro clássico. Biquíni escondido pela saída de praia. Estava discreta, esse era o seu estilo. Maquiagem leve e o sorriso que demonstrava uma única coisa; 'saco cheio'.
Filha tardia da geração feminista, que queimou sutiãs, mas não liberou as mulheres. Agora todas trabalham muito, ganham seu próprio salario e não vendem mais seus corpos para homens opressores. Se exibem de outra forma, menos vulgar. Esse era o discurso, fazia sentido, só podia ser verdade.
Naquele dia de sol brilhante, Bárbara estava deitada na beira da piscina tentando tomar um pouco de sol. Era o segundo dia da viagem de férias. A cada cinco segundos, tinha que olhar os filhos que brincavam na piscina. Não era preocupação com a segurança deles, mas o chamado insisttente das crianças.
Nem a saída de banho ela tinha tirado e os dois berravam sem parar. Ela olhava com um sorriso amarelo. Lucas tinha 9 anos e Mariana tinha 7. O marido, Cadu, se ausentava a cada chance: ia comprar algo para beber ou buscar toalhas. Ele fugia dos apelos das crianças.
Bárbara era uma jovem adulta de 37 anos que tinha cumprido os dez mandamentos da mulher moderna, mas não tinha ganhado o reino dos céus. Estava tudo ali, exceto ela, ou melhor, o que ela imaginou que sentiria caso tudo estivesse ali.
Olhava para os filhos e pensava: "como pude criar duas crianças tão chatas?" . Olhava para o marido e tinha certeza de nunca ter imaginado que o Cadu, cheio de ginga, se tornaria esse barrigudinho que arrasta chinelos na beira da piscina.

Diante de uma realidade tão apática, ela decretou:
"Estou deprimida."
Cadu olhou assustado e não entendeu, mas também nem quis perguntar, pois a 'culpa' seria dele. E, em resposta a essa declaração, ele pergunta:
"Quer uma cerveja?"
E ela logo resoonde:
"Querer, eu queria, mas não posso, engorda! Me traz uma água!"

Era inconcebível para ela pensar que todo o investimento da vida tinha dado nisso. Só isso.
Ter pronunciado aquela frase, "estou deprimida", como se esse diagnõstico representasse bem a frustração de não saber afinal, o que realmente queria para sua vida. Decretado aquela sentença numa situação aparentemente banal e corriqueira foi o melhor e o pior que aconteceu a ela. Uma vez pronunciado o fracasso, não tinha mais volta, agora era a hora de fracassar.
Sem se dar conta, ela foi estragando tudo que tinha construído com o melhor de si. Em casa, ela chamou o pedreiro inúmeras vezes, pois teve vazamento no banheiro, rachadura no batente da porta do quarto e as lâmpadas queimavam toda semana. Perdeu a chave da porta de entrada e o controle remoto do portão da garagem. Não aguentava mais, aquela casa a estava enlouquecendo. 
Enquanto a casa mostrava os buracos que ela tinha tentado vedar com reboques diversos, no trabalho as coisas também fugiam dos planos. Mudança de chefe inesperada, agora ela iria trabalhar com aquela que era 'um trator', que se dedicava integralmente à carreira. Ela sabia que ia ser muito exigida. Precisava da força-tarefa para passar por esse período. 
Resolveu fazer um jantar de família para pedir ajuda. Foram no restaurante preferido das crianças, assim elas ficariam mais quietas. Se sentaram, pediram todos os pratos depois de muita agitação e ela começou a tentar falar. Cadu olhava para ela, como se a ouvisse com muita atenção. As criança o imitavam e ela começou:
"Estou com uma nova chefe, muito exigente, preciso de vocês."
As crianças pareceram curiosas, como se ela fosse brincar de caça ao tesouro com eles, indicando as próximas pistas. Cadu olhou com um misto de 'lá vem louça toda noite na minha conta', e 'agora sexo só nas férias'. 
Ela continuou:
"Em casa cada um vai fazer um pouco. Vocês vão deixar o quarto em ordem e fazer a lição sem ninguém precisar mandar. Vocês já são bem grandinhos para isso. E você Cadu, assume o macho alfa, cuida da casa, dá um jeito nessas coisas que vivem quebrando, ou chama o 'marido de aluguel'. Eu não posso pensar em mais nada, agora estou na missão 'promoção'."
Terminaram o jantar, foram para casa, nada mudou.
Marcou o psiquiatra para pedir receita da bendita fluoxetina, não podia ter uma depressão no meio de seu caminho. Saindo da sessão, receita na mão, pressa para chegar à farmácia. Toca o celular e era o Cadu. Ele tinha uma bomba: 
"Fui demitido..."
O primeiro pensamento foi de desespero total. Ela desligou e começou a chorar, era uma tragédia o marido sem emprego e todos os planos dela indo por água abaixo. Mas que planos? Ela nem se dava conta que chorava por algo que nem sequer tinha imaginado, ela chorava por ter perdido o que nem existia. 
O próximo passo foi o de sempre, ligar para a mãe, que dizia para ela ficar no pé dele, não deixá-lo se acomodar em casa e virar um vagabundo. Ela não precisava de mais um filho.
Naquela noite, teria uma conversa séria com ele, precisava se impor antes que ele resolvesse usufruir do trabalho e do salário dela. Era hora de colocar os pingos nos 'is'. Quando chegou, ele tinha preparado um lanche para o jantar e as crianças pareciam mais calmas. Ela não sabia como fazer, pois teria que iniciar um conflito naquele ambiente tranquilo. Deixou a conversa para o dia seguinte.
Os dias se passaram e enquanto o Cadu não se recolocava profissionalmente, mantinha as coisas bem organizadas em casa. Ele sabia gerenciar as coisas e as crianças precisavam apelar menos por atenção. Ela finalmente entendeu o que era tão caótico e desgastante. Eram muitos apelos do mundo, o interno e o externo, e era impossível responder a todos. Alguns pratos não serão equilibrados, vão cair, quebrar e tudo bem.
Mas Bárbara ainda tinha mais um choro para controlar, e não era o seu, era a mãe, que não largava do seu pé, insistente sobre ela não deixar o marido se acomodar. A influência era grande e ela não via como silenciar aquela que tinha feito tantos sacrifícios por ela.
Bárbara notou que tinha se tornado uma silenciadora, essa era sua missão na vida. Enquanto ouvia apelos externos, calava os apelos internos. Esses nunca teriam chance de ecoar dentro dela e indicar as saídas.
Numa noite de sexta-feira, assistia o filme 'o diabo veste prada' ao lado de Cadu. Percebeu que a saída era fechar os ouvidos para todos e experimentar ouvir a si mesma. Desligou o celular naquela noite, pela primeira vez em anos. Apagou as luzes da sala e disse para o Cadu que dormiria mais tarde. Ficou sozinha ali, tentando escutar, mas era só silêncio dentro dela. Não poderia tratar isso como mais uma missão na vida. Resolveu que pelo menos para escutar a si mesma ela teria tempo. 

Simone de Paula - 13/5/2016





quinta-feira, 12 de maio de 2016

Volto

Hora de me despedir
Não sei o meu que fica
O sou depois do que recebi
Nada será como antes
Um mundo me espera


Espero que possa receber meu carinho

Maria Laura

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Quanto vale uma biografia?

Com uma única vida pode-se escrever mil autobiografias. Não é necessário mentir, basta deslocar uma palavra, mudar um olhar para iluminar um outro aspecto da realidade enterrada.

Certa manhã, tal parágrafo me transportou para minha própria biografia. Afinal, o que eu contava de mim mesma? Depois de tantos anos de análise será que eu podia dizer que tinha contado mais de uma versão da minha história.? Minha História, só isso era o bastante para confirmar que não. Penso em versões, no plural, mas não me desapego da história singular. Seria mesmo singular a nossa história ou também o que é singular pode se multiplicar?
Nesse último mês, o contato com um livro em particular tem me feito muito bem. Não que ele me dê alegria ou bem-estar, mas porque ele me eleva a um estado em que o horizonte pode ser repensado, revisitado. Do lugar que me encontrava conseguia olhar o horizonte como de uma praia. O mar, sem dúvida, possibilita uma visão ampla e sem muitos entraves, mas ainda assim ele limita ao térreo. Você pode imaginar algum tipo de além do horizonte ou mesmo inventar distorções da forma reta que ali se impõe ao olhar. Mas, sem dúvida, o limite é aquele mesmo do ponto de onde se olha, do ponto de partida do olhar, do olho pelo qual você olha.
Quando fui elevada, naquela grua lenta e delicada, pude observar o mesmo horizonte. Mas enquanto eu era içada, ele se expandia, se inclinava, se reformulava. O mesmo horizonte observado do mesmo lugar pode, ainda assim, ter um novo ponto de vista. E mais, enquanto você se mexe, ele também se mexe em sua direção.Ele não permanece estático, ao contrário, te acompanha. Não se coloca da mesma forma que antes, tenta te manter vendo o mesmo, oferecendo novos ângulos, prismas, revivendo diante do seu olhar.
Como fazer isso com nossa própria biografia quando fixamos nossa história no horizonte e cada face daquilo que se vê é entendida, mas não se movimenta?
Nessa condição de elevação que vivi, o horizonte também estava fixado, mas o movimento a que fui  lançada foi tão interessante que me possibilitou ver realmente de outro lugar.
Como é possível fazer isso sem essa condição de elevação?
Escrevendo aqui me lembrei do filme Up! Algo ali também o tira do chão, possibilitando uma reformulação do horizonte intocado.
Usei o corpo para indicar uma condição de pensamento. Mas como poder viver isso no pensamento? Será que consigo fazer isso com a minha história através da escrita?
Pensando como fazer, mais uma referência cinematográfica me ocorre, pois os irmãos Watchovisk já fizeram isso no Matrix. Mas sempre o corpo é o mobilizador dessa  condição. O fazer com o corpo quando ele já se distanciou tanto da própria história?
Pode-se dizer que algo no meu destino mudou, não apenas com essa leitura, mas com os anos de análise. Será que o destino muda por ter visto novos significantes no horizonte ou o destino de fato tem um sentido próprio?
O entendimento do passado pode proporcionar novidades no futuro. Vemos diferente, escolhemos melhor, experimentamos. Mas esse destino teria mudado mesmo?
E, se o passado fosse diferente? Nesse içar, o passado pode ser diferente e que diferença teria esse destino? Parece que ele traria algo realmente muito distante daquilo que seria uma alternativa de destino para o antigo passado.
Bem, o fato é que não dá pra saber só testar. E, se é uma questão de descobrir como faz, não dá pra pensar como faz, só pra fazer.
Reconheço que opto com frequência pela escrita didática, explicativa, reflexiva. Mas e a ficção da biografia, onde entra? Como poder fazer biografia sem personagem, sem situação, sem conflito e sem sentimentos? Uma biografia se faz com pessoas, com acontecimentos e esses não podem ser construídos na teoria, podem ser imaginados, mas não vividos antes mesmo de inventados.

O exercício será breve. Algumas versões e vejo como será possível ser içada e ver um horizonte em movimento.

Simone de Paula - 04/02/2015

Conto inspirado no livro 'Autobiografia de um espantalho', de Boris Cyrulnik

quinta-feira, 5 de maio de 2016

O trem



Ontem no trem de Mumbai perguntei para uma garota se estava no vagão certo, ela me responde que sim, busco por um lugar sentada, coisa que pode valer quase ouro aqui na Índia. Entro correndo, me despeço da Tati ali fora enquanto ela tira uma última foto e então começo a olhar as minhas companheiras de viagem de Churchgate até Malad pela Western Line, ouço suas vozes estridentes, sinto o cheiro de um dia todo de trabalho envolto em tantas cores, tecidos e um cortante sol, mastigam comidas picantes e fritas enroladas no jornal, falam no celular, entram ambulantes, brincos, pulseiras, mulheres seguram os filhos tropeçando, até camarão fresco passou pela venda, deve ser uma longa jornada pensei, a de cada um.

Já estou acomodada quando a mesma garota volta, entra onde estou e me diz que está errado, esse trem é da linha rápida e não vai parar em todas as estações. Começo a me movimentar quando do meu lado uma outra pega meu braço e diz para ficar, ela é jovem, tem um lenço cobrindo todo rosto, mas seus olhos ficam em evidencia, assim como a força de suas palavras. Elas conversam em hindi, uma explica para outra que ele irá sim onde preciso, que a linha rápida é até o meio do caminho, falam como se cada uma defendesse uma causa, a velocidade, o destino, a hora de descer tornaram-se questões importantíssimas ali. Agradeço as duas, me sinto protegida por elas, é a verdade do trem. As vezes parece uma briga, mas do jeito de cada uma, do jeito delas no mundo, estão apenas argumentando. 

Venho todo o caminho pensando no dia que tive com minha amiga pelas ruas da Índia, pelo bonito de ser alguém que conta com alguém, pela coisa simples e amorosa que é saber-se em um terreno de solidariedade, mesmo que não o veja com frequência, saber que essa terra não tem nome, ela pode ser qualquer parte do mundo, se o mundo mora do lado de dentro.

Era noite, Malad estava próxima, a pequena muçulmana se levanta em Goregaon, ela já vai sair, guardou o celular, atravessou pernas e saris, chegou até a porta, ia partir, antes disso se virou, olhou nos meus olhos e quase me disse
: pronto, logo é a sua hora de saltar, eu fico aqui. Está tudo bem.
Eu olho para ela e digo em hindi: tatá! Ela sabe que me despeço, agradeço e confio não só em nossa troca de sorrisos, mas em uma troca de carinho de longe que nos demos, ouvimos e nos soubemos.

Cheguei em casa acompanhada.



 

terça-feira, 3 de maio de 2016

Simples adeus!

Era um momento de dar adeus. Seria uma simples despedida. Obrigada por tudo. Até breve. Avise quando chegar. Era para ser simples, mas o fato é que o adeus ficou em mim. Não fui eu a ir embora, mas passei o dia como se tivesse ido.

Pensei no que esse adeus estaria precipitando... e, claro! Cheguei no meu desejo de travessia, de estar em trânsito constantemente.


Carla - 03/05/2016